O Programa Caminhos do Campo reúne 62 famílias de 11 municípios da região do Alto Vale de SC (Foto: Divulgação/Epagri)
O Centro de Treinamento da Epagri em Agronômica, no Alto Vale de Santa Catarina, recebe nesta sexta-feira, 13 de março, às 9h, as famílias que participam do Programa de Turismo no Espaço Rural Caminhos do Campo. É o primeiro encontro do grupo depois da conquista do segundo lugar no Prêmio Nacional de Turismo 2025, na categoria Governança e Gestão, entregue em dezembro pelo Ministério do Turismo, em Brasília.
“Vai ser o momento de estender a entrega do prêmio a cada família que faz parte do Caminhos do Campo e mostrar a elas a grandiosidade dessa conquista para que saibam que a jornada de cada propriedade valeu muito a pena e foi reconhecida nacionalmente”, afirma Fabiana Dickmann, idealizadora do circuito e assessora de turismo e cultura da Associação dos Municípios do Alto Vale (Amavi).
O programa Caminhos do Campo foi criado em 2018 pela Amavi e conta com a assessoria da Epagri. O objetivo é promover atrações turísticas rurais como alternativa e complemento de renda, incentivando a permanência das famílias na propriedade. Segundo Fabiana, é uma ferramenta para o município fomentar emprego e renda a partir da oferta de atrações turísticas baseada em tradições, produtos e atrativos culturais e naturais da cidade.

O programa reúne 62 famílias de 11 municípios e tem uma longa lista de espera. “O turismo rural se tornou uma fonte de renda importante para muitos participantes e isso tem despertado o interesse de outras famílias”, conta Katiucia Visentainer, líder na Epagri do Projeto Regional Vale Agregar e responsável regional pelo Programa Gestão de Negócios e Mercado em Rio do Sul. Katiucia também coordena o Comitê de Integração da Instância de Governança Regional Caminhos do Alto Vale e do Turismo (Cintetur/Amavi).
O casal Jairo Boing e Luana Kaleski Boing, de Vitor Meirelles, estão entre os pioneiros no Caminhos do Campo. Eles aderiram ao programa em 2020 e, de lá para cá, o turismo rural ganhou cada vez mais espaço no Sítio Agroboing. Os principais atrativos são o restaurante e o colhe e pague de uvas. “Para nós, o Caminhos do Campo foi um divisor de águas. Meus pais já trabalhavam com turismo, mas a partir do programa eu e Luana assumimos e começamos a crescer muito. Hoje, o turismo é uma das principais rendas da propriedade”, conta Jairo.
Para Luana, o programa trouxe oportunidades de profissionalização que o casal jamais imaginou. Ela cita a participação no projeto Experiências do Brasil Rural, realizado pelo Ministério do Turismo junto com a Universidade Federal Fluminense. “Tivemos muitas capacitações e profissionais praticamente acompanhando o nosso dia-a-dia e isso trouxe muito impacto positivo para nossos negócios. Hoje, temos grupos de turistas que vêm pelo quarto, quinto ano seguido e sempre que retornam trazem familiares e amigos”, conta a agricultora.

Com o crescimento no número de visitantes, Jairo e Luana construíram um novo restaurante em 2023. O projeto incluiu várias sugestões dos turistas e orientações recebidas nas capacitações, como investimentos em acessibilidade e energia solar. A produção de uvas também foi incrementada. Hoje, há 16 variedades da fruta na propriedade. A tradicional produção de fumo da família Boing ainda ocupa espaço, mas os planos do casal é reduzir ano a ano para introduzir novas atrações turísticas.
A meta do Cintetur/Amavi é fechar o ano de 2026 com mais seis municípios parceiros e aumentar para 150 o número de famílias participantes. Para participar, as prefeituras precisam aprovar uma lei instituindo o programa como uma política pública e abrir chamada pública para que as propriedades rurais interessadas façam sua inscrição e participem do processo de seleção, baseado em uma série de requisitos.

Para a extensionista Katiucia, o impacto positivo do Caminhos do Campo vai muito além de gerar emprego e renda. “Percebemos que ao receber visitantes encantados com os atrativos oferecidos, o produtor rural passou a olhar a sua propriedade de forma diferente, reconhecendo e valorizando a beleza, o potencial e a qualidade de vida de sua terra. Muitos não enxergavam mais nada disso”, conta.
Outro ponto positivo é o envolvimento de toda a família no negócio. Segundo Katiucia, são atividades que valorizam muito o trabalho da mulher. Em geral, são elas que recebem os turistas e preparam a comida como pães, biscoitos, queijos e geleias. “As atividades também estimulam a permanência dos filhos no campo, que passam a ter a própria renda. Nós vimos jovens retornando para o campo, se sentindo valorizados e úteis”, relata a extensionista.
Um grande mérito do Caminhos do Campo é o estímulo ao trabalho em rede. Antes do programa, já havia propriedades rurais oferecendo experiências turísticas de forma isolada. A diferença é a integração dos atrativos em um roteiro que amplie o interesse dos turistas em visitar a região. “Trabalhamos muito para que eles se enxerguem como um grupo e não atuem com rivalidade. A ideia é de associativismo”, explica Fabiana.
Ao atuar de forma colaborativa, as famílias do Caminhos do Campo abrem espaço para a profissionalização do turismo. No ano passado, as propriedades foram capacitadas para se adequar a uma série de requisitos necessários para receberem a certificação ESG. A sigla, conhecida internacionalmente, abrange um conjunto de práticas ligadas à preservação do meio ambiente, à responsabilidade social e à ética e transparência da governança.

Segundo Fabiana, todas as propriedades receberam a visita de uma empresa avaliadora. Ao final do processo, elas foram classificadas em bronze, prata e ouro e receberam o respectivo selo no fórum realizado no ano passado para ostentar em suas propriedades. “A certificação virou a chave para que todos buscassem, e continuem buscando, a melhoria nos processos”, avalia Fabiana. Uma nova avaliação será feita a cada dois anos.
O Sítio Agroboing recebeu o selo Ouro de ESG. Para Jairo e Luana, a certificação contribuiu para aumentar a visibilidade e credibilidade do negócio, auxiliando no fechamento de parcerias. “É muito mais fácil chegar numa agência de turismo receptivo para grupos e oferecer um pacote quando você faz parte de um programa como o Caminhos do Campo e ostenta a conquista de um selo ouro em ESG”, explica Jairo.
Por: Cléia Schmitz, jornalista bolsista na Epagri/Fapesc
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